Trinta Anos do Pecado Original da Governança Digital e de IA
Em 8 de fevereiro de 1996, dois eventos criaram o pecado original da governança digital e, cada vez mais, da IA, moldando os desenvolvimentos tecnológicos até hoje. Em um evento, uma declaração proclamava a internet como um reino soberano, além da autoridade dos estados. No mesmo dia, uma lei entrava em vigor, concedendo às plataformas da internet um abrigo legal sem precedentes contra a responsabilidade pelo conteúdo que hospedam. Juntas, essas ações semearam a suposição duradoura de que o desenvolvimento tecnológico deveria ultrapassar, e muitas vezes ficar fora, da política, da lei e dos instrumentos de governança que as sociedades construíram ao longo dos milênios.
A Declaração de Independência Que Nunca Foi
Uma declaração proclamava dramaticamente que os governos não eram bem-vindos no espaço cibernético. Essa fantasia política gerou uma geração de pensamento que argumentava que a internet significava o “fim da geografia”. A suposição de que existia um ciberespaço além do físico era errônea. Cada atividade online ocorre no mundo físico, sob a jurisdição de um dos 193 países. A declaração era um apelo à desordem disfarçado de liberdade, persuadindo uma geração de que o reino digital estava além das tradições legais e éticas.
O Abrigo Legal Sem Precedentes
No mesmo dia, uma lei nos EUA foi assinada, concedendo imunidade sem precedentes às plataformas da internet. Pela primeira vez, entidades comerciais foram isentas de responsabilidade pelo conteúdo do qual lucravam. Essa abdicação legal foi justificada para proteger a indústria nascente de grandes processos legais, ajudando no crescimento da internet. No entanto, essa imunidade persiste, criando tensões na economia moderna e na lei.
A Convergência de Dois Pecados
Esses dois eventos alimentaram-se mutuamente. A fantasia de um ciberespaço separado forneceu a cobertura ideológica para o tratamento legal excepcional em todo o mundo. A governança digital foi desafiada imediatamente por um juiz, que argumentou que não precisávamos de uma lei específica para a internet, pois as leis existentes deveriam ser aplicadas. Quarenta anos depois, isso se provou correto. O direito não é sobre meios tecnológicos, mas sobre regular as relações entre humanos e as entidades que criam.
A Herança Envenenada e a IA Sem Responsabilidade
Protegidas por essa lei, plataformas de IA podem lançar modelos no mundo com supervisão mínima. O resultado é uma assimetria gritante em relação a outras indústrias que enfrentam responsabilidade. Empresas de automóveis devem realizar recalls por falhas, enquanto uma empresa de IA pode liberar um sistema que amplifica ódio ou dissemina desinformação sem enfrentar consequências legais comparáveis. A carga da prova recai sobre usuários e vítimas, e não sobre os criadores dos sistemas.
Retornando à Sabedoria Legal Milenar
À medida que a IA levanta questões políticas, sociais e econômicas, é necessário revisitar o pecado original da governança, retornando a um princípio legal fundamental: quem cria, opera e lucra com uma tecnologia deve ser responsabilizado por seus impactos previsíveis. Isso não se trata de sufocar a inovação, mas de alinhar inovação com responsabilidade, como a humanidade fez com outras tecnologias transformadoras ao longo da história. A era do excepcionalismo legal deve terminar, e a era da responsabilidade deve começar.